VIDA E MORTE DO ENGRAVATADO
Imagine um
homem de 35 anos. Todas as manhãs ele pega o carro, entra no escritório,
classifica arquivos, almoça na cidade, joga na lotérica, reclassifica arquivos,
sai do trabalho, bebe uma cerveja, regressa à sua casa, encontra a mulher,
beija os filhos, come um bife vendo televisão, cochila no sofá, fornica,
adormece. Qual homem reduz sua vida à essa lamentável sequência de clichês? Um político,
um policial, um pesquisador, um romancista populista? De modo nenhum. É ele
próprio, não importam esses personagens que nos transformamos durante essa saga
em efeito parafuso. O homem de que falo é aquele que se esforça em decompor o
dia em uma sequência de poses escolhidas, quase inconscientemente no meio de
uma gama de estereótipos dominantes. Arrastado de corpo e mente, moldado pela senso
coletivo, numa sedução de imagens sucessivas, desvia-se do prazer autêntico para
triunfar, através de um aceso de paixão, uma alegria adulterada, excessivamente
difundida para chegar a ser mais do que pura fachada. Os papéis assumidos um
após o outro lhe proporcionam uma degustação de satisfação momentânea, quando se
consegue modelá-la fielmente aos parâmetros ditos. A satisfação do papel bem
desempenhado é diretamente proporcional á distância com que ele se afasta de si
próprio, esse é o momento em que ele nega aquilo que ha de melhor na vida, A
VIDA.

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